Estive no Rio de Janeiro no último final de semana
e, novamente, é impossível não fazer comparações ou não pensar na cidade em que
você mora quando observa outra em que você está de visita. Passei o dia
pensando no aumento da passagem de ônibus em Salvador, que vai para R$ 2,80 (era R$ 2,50), e
não pude deixar de lembrar que voltei da Lapa a Ipanema, no Rio, num ônibus,
pagando R$ 2,75, às 2h30 da madrugada.
Eu sei que a Zona Sul daquela cidade não deve servir
de parâmetro e, mesmo que fosse quem mora lá deve ter suas razões para
reclamar, mas às vezes a grama do vizinho é mesmo mais bonita. Quem vive no
subúrbio ou na periferia deve sofrer muito com transporte público, quem vive
nos bairros de classe média baixa e média também, mas o sofrimento aqui em
Salvador parece uma tortura pra todo mundo, muito pior do que a carioca.
Ainda voltando ao exemplo do ônibus de R$ 2,75 da
Lapa a Ipanema, tento achar comparação igual em Salvador, pra não fazer uma
comparação idiota, que deixe essa minha reclamação parecer um desses manifestos
de classe média sofredora, que acha que a união de empresários e/ou meia dúzia
de outdoors “de conscientização” é que vão salvar a cidade, como acontece em
Salvador atualmente. Não conheço quem possa ir do Pelourinho à Barra (pra mim
parece uma comparação equilibrada), depois das 00h, de ônibus. Eu, que moro na
Boa Viagem, não posso sair pra voltar depois das 23h, se quiser ir e voltar de
ônibus. Mesmo que esse “ônibus da madrugada” do Rio só funcione no final de
semana, ainda serve como exemplo. Aqui, nem sábado ou domingo isso existe.
Muito pelo contrário, muitos ônibus que tem como final de linha a Ribeira, por
exemplo, próximo à Boa Viagem e Bonfim, aqui em Salvador, encerram suas viagens
mais cedo no final de semana, como é o caso do Ribeira-Campo Grande (210).
"Cidade para turista" - Nem como uma cidade para turista Salvador parece
servir. Não há transporte público que seja satisfatório pra quem visita a
cidade ou pra quem mora nela. Que fique claro que não defendo uma “cidade
bonita pra turista ver”, embora isso aconteça em alguns lugares, mas nem é o
caso aqui na capital da Bahia, onde sofre “nativo” e “estrangeiro”. Quero ver quem
consegue ir da Barra à Igreja do Bonfim sem reclamar desse sistema de
transporte que cobra R$ 2,80 (por viagem!) e obriga a ficar em casa quem não
tem carro pra sair à noite. E estou falando do meu contexto, que envolve Cidade
Baixa-Cidade Alta. Imagino, pois a desgraça é sempre pior nos bairros mais
afastados, que quem mora em Águas Claras ou Cajazeiras deve ser muito mais
pessimista.
A grande questão é o porquê de ser tão ruim? Parece clichê
essa afirmação ou questionamento, mas quem manda são os empresários mesmo? Até
os ônibus parecem dar um indício disso, já que neles estão estampados os nomes
das empresas, sem qualquer referência à Cidade do Salvador, que é quem deveria
mandar nisso tudo. Por que não temos vans rodando pela cidade toda? Quer dizer,
temos sim, clandestinamente, o que torna a prática ainda mais perigosa, mas
qual a razão de não regularizarmos isso? As vans são regularizadas apenas nos
bairros do Subúrbio e da área Norte da cidade – mais afastada do centro -, mas
porque isso não pode ser levado pra as outras regiões?
Hoje à tarde um amigo da Faculdade de Comunicação e
jornalista, Heider, perguntou sobre a falta de mobilização dos estudantes sobre
o aumento da passagem. Parece que paramos. A cidade moribunda é reflexo dos
cidadãos moribundos (não me excluo dessa definição). Estamos todos conformados, seja dentro do
ônibus com o triplo de gente que sua capacidade comporta ou dentro dos carros,
sozinhos, ao som de alguma rádio. É mais fácil sintonizar uma estação para
descobrir uma rota de fuga dos engarrafamentos (hoje levei 1h20 pra percorrer
os 12 km do trabalho até minha casa) do que decidir queimar Salvador.
Não quero usar o carro, mas também não quero pagar R$ 2,80 pra voltar pra casa
no ônibus cheio, que é a única opção de transporte público que tenho. Reclamações
sobre transporte público são batidas, mas isso influencia milhares de outras
coisas na vida de quem mora na cidade. Não tem índice de qualidade de vida que
atinja bons patamares num lugar onde alguém perde 5 horas ou mais, todos os
dias, apenas no percurso entre a casa e o trabalho.
Parece que é isso que falta: Salvador precisar queimar pra um dia quem sabe ressurgir das cinzas. Se isso vai acontecer ou não é difícil dizer, mas eu quero participar. Quero ver Salvador em chamas pra ressurgir numa cidade tão boa pra seus cidadãos quanto a beleza que a natureza se encarregou de dar.